Porque perdeu D. Miguel a batalha da Asseiceira?

A sorte da guerra civil jogou-se na última carga de cavalaria do exército miguelista na batalha da Asseiceira, perto de Tomar (16 de Maio de 1834). Malogrado este contra-ataque e morto o oficial francês que o comandava, o desfecho das lutas liberais, opondo os partidários de D. Pedro e D. Miguel, desde 1832 estava traçado.

Não foi a Carga da Brigada Ligeira nem teve um Alfred Tennyson que a imortalizasse em verso. Mas o ataque da cavalaria de D. Miguel na Asseiceira foi o último episódio heróico da guerra civil. A partir daí, traído pelos seus próprios generais, não restava ao rei absoluto outra solução que não a rendição.

A capitulação, assinada a 26 de Maio de 1834, passou à história como Convenção de Évora Monte, ainda que os liberais a tenham sempre referido como “Concessão de Évora Monte”.

Foi este o tema da sessão em atraso do II Curso Livre de História Militar “Os Rostos da Batalha”, promovido pelo Centro de História da Universidade de Lisboa . O conferencista foi António Ventura, docente e investigador da Faculdade de Letras de Lisboa e um dos coordenadores daquela iniciativa, cujo programa ficou, desta forma, completo.

Como explicou o orador, os dois exércitos partem para a batalha da Asseiceira em situações opostas. Os liberais tinham conseguido deslocar o eixo da guerra, do Porto (cercado desde 20 de Julho de 1832) para o Algarve (24 de Junho de 1833) e conseguido a supremacia naval na batalha do Cabo de São Vicente (5 de Julho de 1833).

Entraram em Lisboa (24 de Julho de 1833) e repeliram o contra-ataque à capital, dirigido pelo marechal Bourmont (Outubro de 1833). Avançaram pelo Ribatejo, vencendo os miguelistas em Pernes (30 de Janeiro de 1834) e Almoster (18 de Fevereiro).

Ambiente de traição
António Ventura, referiu o “ambiente de traição” então vivido: em Almoster, o comandante da cavalaria miguelista tinha-a conduzido a uma armadilha e feito aprisionar os seus soldados antes da batalha sendo, depois, recompensado pelo comando liberal.

Em Braga, o oficial responsável pelas comunicações do exército de D. Miguel bandeara-se para o campo contrário, levando os códigos do telégrafo.

Daí em diante as comunicações eram interceptadas e decifradas, dando vantagem aos partidários de D. Pedro e aos seus comandantes, os duques de Saldanha e da Terceira.

Do lado miguelista consegue-se, ainda assim, pôr de pé, a 15 de Maio, uma força de 6.000 homens, apoiada por cavalaria e artilharia que estabelece uma posição defensiva de 2,5 km de frente, a sul de Tomar, tirando partido das colinas da Asseiceira (perto do actual nó de Tomar da A23).

O exército liberal, estabelecido em Tomar, avança para sul, a 16 de Maio, ao nascer do sol. A guarda-avançada miguelista retarda o avanço contrário sobre Santa Cita até às nove da manhã, altura em que os liberais conquistam a aldeia e formam em três colunas para conquistarem as elevações guarnecidas pela artilharia contrária.

O fogo da artilharia e das armas ligeiras enche o vale de fumo e reduz a visibilidade. António Ventura citou o testemunho de um combatente segundo o qual “parecia que a própria charneca estava a arder”. É o momento em que um golpe de audácia pode resolver uma batalha indecisa. O general miguelista Guedes de Oliveira manda avançar a cavalaria.

Cavalgada heróica
Esta era comandada pelo oficial francês Puisseux, um homem alto, de uma coragem lendária e com a cara traçada por uma cicatriz, recebida em Santo Tirso. Invectiva os seus 250 cavaleiros – em mau português, como contou o conferencista – e comanda uma carga que obriga a infantaria liberal a retroceder, até porque os Lanceiros da Rainha recuam, também.

A vitória parece certa mas, ao chegarem ao alto de uma colina, deparam, lá em baixo, com os soldados do coronel Vicente Queirós, um dos melhores operacionais de D. Pedro. Estas forças de reserva não fogem, formam em linha e disparam sucessivas salvas.

Pussieux é mortalmente ferido. Nem sempre a morte do comandante que lidera um ataque desmoraliza as tropas mas neste caso, o ímpeto estava definitivamente quebrado e a iniciativa voltava a pertencer aos liberais.

Retirada para Évora
A partir daqui o exército de D. Miguel retira sobre Évora. Recebe reforços importantes vindos do Algarve e Alentejo (parcialmente dominados pelos absolutistas nas zonas rurais) e junta 10.000 homens. Sendo Évora indefensável, tem duas hipóteses: retirar para as fortificações de Elvas, cuja guarnição lhe continua fiel, ou, como escreverá mais tarde nas suas memórias Charles Napier, o almirante britânico ao serviço dos liberais, ter a audácia de avançar sobre Madrid e juntar-se às forças carlistas espanholas que, desde Outubro de 1833, se tinham rebelado contra o governo liberal.

De resto, o pretendente absolutista ao trono espanhol, o auto-proclamado Carlos V, estará em Portugal até à derrota de D. Miguel.Mas, como referiu António Ventura, os generais miguelistas vão puxar o tapete ao rei e “negociar a paz nas suas costas”. Em “A Brasileira de Prazins”, Camilo Castelo Branco descreverá, mais tarde, um diálogo entre dois partidários de D. Miguel: “o rei deve saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o MacDonnell, no fim da campanha. Sabes tu? – rematou o morgado – aqui anda marosca…”

Em Espanha a guerra civil vai prosseguir até 1839 com um resultado final idêntico ao português mas num cenário simétrico: o governo central e o exército eram liberais, enquanto os absolutistas dominavam o campo e tiveram que formar um exército a partir de milícias “e de oficiais carlistas saneados”.

Guerra continua em Espanha
Muitos dos estrangeiros que tinham lutado em Portugal vão, agora, combater em Espanha, uns ao serviço de liberais, outros dos absolutistas. Uma divisão portuguesa combaterá ao lado dos liberais espanhóis, retribuindo o apoio militar prestado em 1834, quando tropas espanholas tinham entrado por Almeida e pelo Alentejo para pressionar D. Miguel.

Os franceses, quase todos realistas, combatem nos dois campos: durante o cerco do Porto, os liberais chegaram a ser comandados por Solignac e os miguelistas por Bourmont.

“Um caso curioso, 20 anos depois das Invasões Francesas”, como lembrou o prof. Ventura. E que punha em causa a propaganda miguelista (um rei legítimo e um povo contra os estrangeiros), expressa numa descrição na imprensa do desembarque do Mindelo (18 de Julho de 1832), pintado como a chegada a terra de uma “horda polaco-germano-vândalo-hispano-marroquina…”

Sendo os governos francês e britânico da época partidários da monarquia constitucional e tendo assinado a Quádrupla Aliança com os liberais portugueses e espanhóis, o apoio internacional a esta causa estava garantido.

As leis francesas e inglesas proibiam o envolvimento de oficiais em conflitos estrangeiros, razão pela qual muitos dos envolvidos, como por exemplo Napier, usaram pseudónimos.

A diferença é que os franceses que lutavam no campo absolutista arriscavam sanções mais pesadas, por estarem a contrariar a política peninsular dos respectivos governos.

Fonte:
http://aeiou.expresso.pt

Um comentário

  1. marcelo 2 de Março de 2010

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