Papel esquecido

Constituição da Republica PortuguesaEstas pontes e feriados não vão durar muito mais, porque da forma como isto vai, iremos acabar por esquecer o caráter festivo destes dias. Vale tudo, e se deixarmos que tudo continue nas mãos dos banqueiros e especuladores, nem sequer nos irão deixar o direito de sonhar. Vemos chorar ministras estrangeiras e observamos na televisão intervenções em países que pensávamos ficarem longe da nossa realidade, tão longe como a realidade dos trabalhadores na China, há alguns anos atrás.

Na Constituição portuguesa estão definidos alguns princípios inegociáveis, entre outros os da igualdade e da soberania, mas atualmente as ordens vêm de fora. Estamos a fazer o que ordenam Sarkozy e Merkel, duas personagens que não participaram em nenhuma eleição no nosso país, nem foram eleitos pelos portugueses. Ou pior ainda, estamos às ordens dos banqueiros ocultos atrás de uma Troika sinistra.

A Constituição é o amparo e a garantia dos jornalistas e de quem ainda pensa pela sua cabeça, porque defende o direito à informação como algo fundamental para a boa saúde democrática de uma sociedade. Será bom recordá-lo, agora (e já anteriormente) que muitos políticos não gostam que lhes sejam feitas perguntas incómodas (onde andas Mário Crespo?).

Mas sobretudo, há que recordar à sociedade que não se esqueça de onde viemos e para onde podemos ir, se nos despistarmos do caminho e deixarmos que continuem a negociar os nossos direitos fundamentais.

Não há nada que justifique uma mudança nos princípios da revolução francesa. Não podemos deixar que nos tirem a liberdade, a justiça ou a igualdade. Se o fizermos e continuarmos a permitir, que os tecnocratas apliquem as suas medidas esclavagistas, iremos regredir e voltar ao passado, contradizendo a evolução natural das espécies preconizada por Darwin.

Qualquer dia iremos acordar e ouvir, “que para sairmos da crise” (é sempre utilizado esse vulgar eufemismo e chavão), também as crianças terão de começar a trabalhar. Mas não o farão de repente. Primeiro irão propor que trabalhem os adolescentes de dezassete anos, argumentando que não são já tão crianças quanto isso, e depois, irão baixando progressivamente, tal como agora pretendem subir a idade da reforma, sem que nos assombremos com isso.

Não podemos fechar os olhos a tudo isto.

A Constituição Portuguesa não é nenhum papel esquecido no fundo de uma gaveta e esquecermos os nossos direitos fundamentais, não é alternativa.

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