Os meninos gostam do contentor amarelo

A professora de Educação Física chega à velha escola do plano centenário e os meninos do 2.º ano seguem-na como patinhos, em fila indiana, em direcção ao pátio onde está o contentor amarelo, com pequenas mesas e cadeiras, como uma verdadeira sala de aula, acolhedora com as suas cortinas floridas. Já familiarizados com o espaço, cada um senta-se onde quer.

A maioria dos alunos do pré-escolar e do 1.º ciclo de Linhaceira, quando não está na escola, está no espaço de actividades de tempos livres (ATL) da Associação de Pais e Amigos das Escolas de Linhaceira (APAEL), na velha escola com apenas uma sala de aula e agora um contentor em segunda mão, mas limpo, confortável e com ar condicionado.

Com o aumento do número de alunos nas ATL e a impossibilidade de arranjar um espaço condigno para acolher as crianças, um dos pais da associação deu a ideia: porque não comprar um contentor? A moção foi aprovada e os pais não esperaram por apoios ou financiamento e adquiriram o contentor.

Por isso, este ano, a Feirinha de S. Martinho, na aldeia de Tomar, que já vai na sua quinta edição, teve um objectivo especial: angariar fundos para pagar o contentor amarelo. Na tarde de ontem, houve castanhas, doces tradicionais, bifanas, artesanato e foi lançado o livro O dia em que choveu pétalas.

Trata-se de um conto infantil que diz muito aos mais novos, todos reconhecem a lenda de Santa Iria, porque a maioria das crianças do concelho participa na procissão, que se realiza em Tomar, em Outubro. Quando as crianças chegam à ponte velha da cidade, atiram pétalas para o rio, assinalando o local onde o corpo da bela Iria, a padroeira do concelho, terá sido atirado à água. É por isso que o título é O dia em que choveu pétalas, justifica Nuno Garcia Lopes, vice-presidente da APAEL e autor do livro.

Não ficar à espera

 

Durante a Feirinha de S. Martinho, as ilustrações que Sandro Ferreira fez para o livro foram leiloadas, com vista a arranjar dinheiro para pagar o contentor que custou cinco mil euros – quer Nuno Garcia Lopes, quer o ilustrador, dois filhos da terra, cederam os seus direitos de autor à APAEL. “Não queríamos ficar à espera de ajuda e adquirimos o contentor, agora precisamos de o pagar”, justifica o vice-presidente da associação, explicando que “o espírito da equipa de pais e da terra é fazer, ir à luta e não esperar por apoios”.

Junto à porta de entrada da antiga escola primária estão vários garrafões vazios de água, mas cheios de rolhas de cortiça, uns, e de cápsulas de café vazias, outros. “Fomos pioneiros na reciclagem, temos um oleão e fazemos compostagem caseira”, diz Gisela Martins, presidente da associação, revelando as outras fontes de rendimento da APAEL. Para não esquecer as rifas e leilões.

A associação tem ainda promovido parcerias com o clube desportivo da terra, o rancho e o centro de dia. “Temos tido a preocupação de criar produtos culturais”, acrescenta Gisela Martins. O livro faz parte desse projecto, tal como a biblioteca – “mandamos cartas para todo o lado, a pedir livros e conseguimos”, congratula-se Nuno Garcia Lopes -, as noites de astronomia – o marido de Gisela Martins é astrónomo amador e partilha os seus conhecimentos com os mais pequenos – ou as peças de teatro que os mais pequenos fazem.

A hora da refeição está quase a chegar. A sala onde alguns dos pais terão tido aulas na primária tem agora as mesas postas, pratos coloridos e copos de vidro. O cheiro a pão quente denuncia a máquina que a APAEL comprou para poupar na factura da alimentação.

Fonte: Jornal Publico

Um comentário

  1. Rui Castro 21 de Novembro de 2010

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