Medo e democracia

Como se fosse uma espiral infinita, todos os dias tropeçamos em notícias impregnadas de medos, incertezas e desesperos que falam de mais desemprego, mais exclusão social, mais pobreza, mais encerramentos de empresas… Isto dura já há demasiados anos e não é novo, mas temo que não fique por aqui esta roda-viva de desassossegos até à submissão da classe média, ao empobrecimento da maioria da sociedade e à perigosa domesticação da democracia. Dizem-nos que estamos a tomar o mesmo rumo da Grécia; que os nossos filhos vão viver pior do que nós; que o desemprego continuará a subir; que as medidas drásticas de ajustes e cortes apenas estão no início; que houve desperdício e que nos devemos esquecer de uma educação pública de qualidade, de um serviço de saúde decente e de um Estado que nos garanta a equidade e igualdade. Somos constantemente bombardeados com a necessidade de reformas laborais “imprescindíveis”, enquanto Merkel e Sarkozy, a governadora e o vice-governador da Europa nos pintam um cenário de terror, obrigando o governo português a cortes nas despesas, ao mesmo tempo que nos advertem com a ameaça de uma intervenção igual à que foi feita no país helénico.

Enquanto tudo isto sucede, aos poucos, vai-se minando o Estado, os direitos sociais e laborais e a democracia. Aceitamos sem reclamar que se despeje mais dinheiro em bancos que esbanjaram milhões; que se aumente a idade da reforma; que se altere a constituição sem consultar os cidadãos; que se cortem salários e que as pensões percam o poder de aquisição; que nos seja imposta uma reforma laboral que não visa nada mais do que cortar direitos aos trabalhadores; que o governo tenha uma política de ajustamentos que apenas criam mais desemprego, pobreza e desigualdades sociais à nossa volta; que determinados sectores empresariais nos vendam a ideia de que unicamente é possível criar emprego com a especulação.

Há mesmo muitos trabalhadores que se oferecem como voluntários nos despedimentos colectivos com medo do futuro da empresa ou de uma reforma laboral agressiva.

Trata-se da constatação palpável do medo. De como, lentamente, nos vão inoculando o medo como a melhor arma de subjugação da sociedade. Vão-nos contaminando com a filosofia da obediência paralisante. Mas isto não é novo, vem de longe, tem séculos, embora agora estejamos a viver uma etapa de especial agravamento. Podemos ter uma visão do medo como sendo uma paixão negativa que impele os seres humanos a escolher o seu caminho e que os conduz à cega aceitação da tirania e da dominação. Há outra visão contrastante com esta, que nos diz que o medo é a forma natural de conseguir a convivência pacífica. Não existiria Estado se não tivéssemos medo do caos que significa a ausência de autoridade. É o medo que regula as práticas políticas e sociais. Maquiavel diz-nos que os que exercem o poder têm duas formas de conseguir o respeito dos seus súbditos: ganhando o seu afecto ou utilizando o medo. Existe ainda a tese de Georges Lakoff que afirma que “o medo é um instrumento mais perigoso que o neoliberalismo” (que é sem duvida muito mais do que uma teoria económica). É o mesmo que defende Naomi Klein em “A doutrina do shock” onde se faz eco da afirmação do neoliberal Milton Friedman de que “apenas uma crise real ou perceptível produz verdadeiras mudanças”. É o tempo para debilitar as liberdades e eliminar os direitos civis, para iludir a soberania popular. No momento alto do medo e do terror (dá o mesmo utilizar exércitos, o Banco Mundial ou o FMI para o conseguir) é quando devem ser adoptadas todas as privatizações e medidas “liberalizadoras” mais profundas e, se tiverem duvidas perguntem aos países latino americanos… e agora aos europeus. Para Irene Khan, Secretaria General da Amnistia Internacional, “a política do medo está a gerar uma espiral descendente de abusos contra os direitos humanos onde nenhum direito é intocável nem ninguém está a salvo”.

Foi-nos desenhado um cenário de medos e incertezas que nos mantém absolutamente anulados. É a economia do medo. O medo produz antipatia para com os outros, cessão contínua dos direitos perante a possibilidade de insegurança económica, impotência perante as agressões dos que se aproveitam da crise para lucrar e prejudicar os outros, descontentamento em relação aos políticos que nos representam e que muitas vezes não podem actuar porque as decisões mais importantes são tomadas longe dos Parlamentos… O medo sempre foi um aliado natural do poder. É uma emoção que imobiliza, que neutraliza, que não permite actuar nem tomar decisões com naturalidade. O medo como arma de dominação política e de controlo social, o medo como arma de destruição em massa na guerra de classes; um medo de rostos inéditos que nos torna susceptíveis de ser dominados; pânicos de consistência líquida que fluem, calam, se filtram e dos quais ninguém está a salvo, embora sejam sempre mais os perigos anunciados do que os que chegam efectivamente.

A democracia retrocede no Velho Continente, perde qualidade e participação pública, enquanto o mercado avança na ausência de normas e mediante abusos, escândalos e cumplicidades com o poder político, mas o medo parece que nos tem atados a uma espécie de resignação sem limites. É muito conhecida uma frase de Roosevelt pronunciada na sua tomada de posse em 1933, na ressaca da grande crise de 1929: “A única coisa da qual devemos ter medo é do próprio medo”. Talvez seja hora de aplicar este ensinamento e de começar a reagir.

Comentários (2)

  1. Brígida 14 de Março de 2012
  2. Luis Ferreira 18 de Abril de 2012

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