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Autor Tópico: 175º Aniversário da Batalha de Asseiceira  (Lida 407 vezes)
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« em: Maio 10, 2009, 05:59:03 »

“ … Chegámos (a Tomar) na tarde de 14 de Maio. O belo Convento estava ocupado por uma considerável força miguelista e, no prado, para lá da vila de Tomar, descobriam-se seis belos esquadrões de cavalaria, doze bocas de fogo e uma grande força de infantaria que se não podia calcular bem por causa do arvoredo que a encobria.
O Convento ficava-nos no flanco direito quando avançávamos para Tomar, e o Marechal avançou sempre sobre a vila, sem lhe importar aquela força. Com espanto nosso, o inimigo abandonava a bela posição do Convento e a força concentrou-se no prado junto à vila e nas posições sobre a estrada de Asseiceira e Barquinha.
A nossa cavalaria esteve a tiro de pistola, em linha, em frente da cavalaria inimiga, mais forte dois esquadrões do que a nossa, e a nossa infantaria, em coluna, foi colocada na retaguarda da cavalaria, e a artilharia na retaguarda da infantaria.
Ao anoitecer, o inimigo retirou sobre a estrada de Asseiceira e o Marechal mandou colocar os seus postos avançados, estabelecendo o seu Quartel-General em casa do Superior do Convento de Cristo, o cavalheiro Athayde. Pela manhã fizemos um reconhecimento em força e o Marechal coligiu que o General Guedes (defensor da causa Miguelista) ocupava as belas posições da Asseiceira para nos dar batalha.
O General Guedes tinha reunido as consideráveis forças, com que saíra de Santarém, ás colunas dos Generais Cardoso e Ricardo. O Duque deu um descanso de vinte e quatro horas ás forças do seu comando e preparou-se para a grande batalha ...
Ao romper do dia, o Corpo de Exército do Marechal Duque da Terceira formou no belo campo junto á vila de Tomar e de que me não lembra o nome. A Brigada do Coronel Queiroz formava a vanguarda do pequeno Corpo de Exército; seguiam-se os seis esquadrões de Cavalaria do General Fonseca, a Brigada do General João Nepomuceno e a Brigada do Coronel Vasconcellos.
Próximo à posição de Asseiceira, num bosque que corta a estrada real, encontrámos, em força, o inimigo, com uma considerável linha de atiradores. Engajou-se logo em fogo a Brigada do General Queiroz e parte da Brigada do General João Nepomuceno, ocupando a cavalaria, em coluna, a estrada, ficando em reserva parte da Brigada do General João Nepomuceno e a Brigada do Coronel Vasconcellos; a nossa artilharia fez alto na estrada, a grande distância da retaguarda da cavalaria.
A força inimiga que ocupava o bosque era uma força que o General Guedes fizera avançar das suas belas posições para nos reconhecer, a qual se retirou fazendo-nos sempre frente, e depois, protegida por uma bela bateria de seis bocas de fogo muito bem servidas, conseguiu reunir-se ao seu Corpo de Exército.
Pudémos então descobrir as posições ocupadas pelo inimigo; o seu centro cortava a estrada de Tomar para a Barquinha, a direita ocupava a pequena aldeia de Asseiceira, e a esquerda, que era o fraco da sua posição, estava protegida pela cavalaria, que era superior á nossa, e pela artilharia, que o era também; por esta forma as posições do General Guedes eram excelentes e toda a probabilidade de vantagem devia ser a favor das armas do Usurpador (epíteto que os liberais designavam o Rei D. Miguel).
O Marechal Duque da Terceira fez entrar logo as forças do seu comando em ordem de combate. O Coronel Queiroz fez um movimento sobre a direita, ficando desde logo a ala direita em ordem de batalha; o Marechal avançou pelo centro com a Brigada do General Nepomuceno, e o Coronel Vasconcellos fez um movimento sobre a nossa esquerda e direita do inimigo. O General Fonseca, com a cavalaria, ocupava a estrada real, ficando, pouco mais ou menos, no centro da nossa linha, excepto os dois esquadrões organizados no Porto pelo Coronel Luiz Filipe e Major António de Mello, os quais seguiam o movimento da Brigada do Coronel Queiroz. O Marechal tinha ordenado a dois dos seus oficiais de ordens, o capitão Casimiro e o alferes D. Manuel de Sousa que ficassem debaixo das imediatas ordens do Coronel Queiroz.
A nossa artilharia colocou-se na melhor posição que o Marechal e o seu Chefe de Estado-Maior puderam encontrar, mas que era muito inferior á bela posição que ocupavam as baterias inimigas, tornando-se portanto, muito desigual o combate para a nossa artilharia. A artilharia inimiga não perdeu tempo: abriu desde logo um fogo terrível sobre as nossas colunas, principalmente contra o centro, que foi fulminado e batido em brecha por seis bocas de fogo, incluindo um obuz, que muito estrago fizeram nas nossas fileiras.
Os nossos atiradores avançaram com coragem: no centro, onde estava o Marechal Duque da Terceira, uma formidável linha de atiradores de Voluntários de D. Maria II avançou por tal maneira, fazendo um fogo mortífero, que levou á retaguarda os atiradores inimigos e as suas reservas, tentando tomar de frente á baioneta a formidável posição; o inimigo, porém, em força, em posições muito vantajosas e protegido pela sua artilharia que estava a tiro de fusil dos nossos atiradores e que fez uso da metralha, repeliu o ataque dos nossos Voluntários, sendo necessário que o Marechal Duque da Terceira e o General Nepomuceno avançassem com o resto de Voluntários de D. Maria II e com o Regimento 18, em força de três batalhões, para sustentar a nossa linha de atiradores.
O combate, no centro, tornou-se muito sério e mortífero. Vi muitas vezes o Marechal Duque da Terceira e o General Nepomuceno envolvidos em nuvens de poeira, em consequência de ricochetearem ao lado deles as balas da artilharia; as balas davam nos valados e muros, que cortavam as terras, e derrubavam-nos, fazendo cair uma quantidade de estilhaços que nos faziam perder muita gente, ferindo-a e matando-a.
Por três vezes, os dois Generais, o Coronel Mesquita do 18 e o Comandante de Voluntários de D. Maria II tiveram que se colocar á frente das suas colunas, para repelir o inimigo, que queria desalojar-nos das nossas posições. Na nossa direita, o Coronel Queiroz lutava com imensas dificuldades; os dois esquadrões de cavalaria que ele tinha, apesar de serem, como já disse, muito bem comandados, não estavam no caso de repelir uma carga de cavalaria inimiga comandada, no flanco direito, pelo Brigadeiro francês, Conde de Puiseux, que cobriu a retirada da Divisão do General Cardoso e que, por diferentes vezes, ousou carregar a Brigada do Coronel Queiroz, que, ora formando quadrado, ora em linha, repeliu as cargas com firmeza e resolução.
O Coronel Queiroz a todos os momentos requisitava um reforço de cavalaria, dizendo que a sua Brigada estava comprometida completamente, se não lhe aumentassem a força.
O Coronel Vasconcellos, na esquerda, não lutava com menos dificuldades. Não carecia de cavalaria nem receava da inimiga, porque o terreno era muito montanhoso, mas as perdas que tinha tido eram imensas: os atiradores inimigos e duas peças de artilharia faziam grande desfalque nas fileiras da Brigada. O Duque, com, repugnância, anuía ás requisições do Coronel Queiroz, porque via na sua frente uma grande força de cavalaria inimiga e poupava o melhor da sua cavalaria, debaixo das ordens imediatas do General Fonseca, para uma ocasião decisiva.
O combate estava duvidoso em toda a linha. O Coronel Vasconcellos declarava que lhe era impossível avançar e tomar as posições, e o Coronel Queiroz continuava a reclamar reforços de cavalaria, não ocultando o receio que tinha de ser forçado a vir á retaguarda. O Marechal Duque da Terceira, com o seu Chefe de Estado-Maior, observaram com os seus óculos a força do inimigo e os seus movimentos, e apearam-se, assim como nós todos, para tomar uma decisão sobre o movimento que tinham a fazer, porque não havia tempo a perder. Quando o Marechal e o seu Estado-Maior formavam um grupo e o Coronel Loureiro, fazendo uso do óculo, examinava o inimigo com toda a atenção, uma bala de fusil veio feri-lo gravemente no peito, donde lhe saiu um jorro de sangue, julgando todos nós e o próprio que a ferida era mortal. Levámo-lo em braços para traz de um muro, onde o supúnhamos ao abrigo das balas, e de aí foi conduzido à ambulância, acompanhado pelo cirurgião da Divisão, Libanio.
O Duque montou logo a cavalo e dispunha-se para atacar de frente e ordenar ás colunas da direita e esquerda que avançassem sobre o inimigo, quando o Coronel Queiroz, em pessoa, a grande galope, seguido do capitão Casimiro e do alferes D. Manuel de Sousa, veio dizer ao Marechal que, pela terceira vez, tinha sido carregado pela cavalaria inimiga que tinha sido reforçada por mais um esquadrão, e que, se lhe não mandasse um reforço considerável de cavalaria, lhe era impossível avançar. Nesta ocasião, o Marechal e todos nós observámos que a cavalaria inimiga, na nossa frente, fazia um movimento sobre o nosso flanco direito e que um numeroso Estado-Maior precedia a cavalaria, devendo nós presumir que era o General Guedes. O Marechal mandou-me logo levar ordem ao General Fonseca para que fizesse um movimento, a trote, sobre a direita e seguisse os movimentos da Brigada do Coronel Queiroz.
Dirigi-me a grande galope ao encontro do General, que executou logo a ordem, e o esquadrão de D. Carlos Mascarenhas fazia a frente da coluna que estava formada por divisões. Avançamos, a grande trote, sobre a direita. D. Carlos, chegando á esquerda da Brigada do Coronel Queiroz e encontrando-se com ele, recebeu ordem deste para fazer ombros esquerdos frente carregar dois esquadrões que tinha no flanco direito. O Coronel não via o General Guedes á frente de seis esquadrões e a pequena distancia dele na sua frente. D. Carlos, em lugar de dar a voz de ombros esquerdos, deu a de ombros direitos frente e meteu em linha o seu esquadrão, colocando-se á frente dele, tudo a galope, dando vivas à Rainha e gritando: Abaixo o General Guedes, que via de sabre na mão, á frente dos seus seis esquadrões para o carregarem.
A carga do nosso esquadrão foi brilhante. A rapidez dos seus movimentos foi como um raio que caiu sobre o General Guedes: os seis esquadrões e as seis bocas de fogo, que tinha na sua retaguarda, tudo ficou morto, ferido ou prisioneiro, e as seis bocas de fogo ficaram, desde logo, em poder do bravo D. Carlos. O seu arrojo não parou aqui: vendo diante de si inumeráveis mortos e feridos, seis esquadrões aniquilados e um parque de artilharia fora de combate, estando mortos, ao lado das peças, quase todos os artilheiros e os machos, seguiu o General Guedes, que, acompanhado dalguns dos seus Ajudantes de campo e de algumas ordenanças, tratava de salvar a vida, seguindo o caminho da Atalaia e da Barquinha, perseguindo-o até perto desta ultima vila.
O Brigadeiro francês, Conde de Puiseux, carregou com ímpeto, pela quarta vez, a Brigada do Coronel Queiroz, mas foi repelida a carga e morto o Brigadeiro. O Duque da Terceira ignorava completamente a bela carga e o resultado dela. Atacou de frente a posição e foi levando o inimigo de posição em posição, aprisionando e pondo fora de combate muita da sua força, até que se apoderou de todas as posições, pondo o inimigo em completa derrota, a ponto de abandonar armas e bandeiras. O Coronel Vasconcellos não foi menos feliz do que o Marechal Duque da Terceira e General Nepomuceno. Apoderou-se da posição, aprisionando três batalhões ao inimigo e grande quantidade de armas, pólvora e bandeiras. As forças do General Guedes não foram só derrotadas: ficaram completamente aniquiladas na famosa batalha de Asseiceira. Poucos foram os soldados miguelistas que puderam reunir-se ás bandeiras do seu Rei …
O Quartel General do Duque estabeleceu-se na Atalaia; todos os grandes lavradores da Golegã, Relvas, Honorio e outros muitos, vieram felicitar o Duque e fazer-lhe os seus oferecimentos.”
As tropas de D. Miguel, segundo alguns historiadores, entre feridos e prisioneiros tiveram baixas de 2915 homens, sendo os prisioneiros mais de 1.400. Por sua vez as tropas de D. Pedro tiveram baixas de 344 homens, 34 mortos, 288 feridos e 22 desaparecidos.
A vitória pelas tropas de D. Pedro, em 16 de Maio de 1834, na batalha de Asseiceira, abriu o caminho para a ocupação da cidade de Santarém, o derradeiro baluarte das tropas de D. Miguel. Com a vitória das tropas liberais na Asseiceira, auxiliadas por tropas estrangeiras (1), no dia 26 de Maio de 1834, na Convenção de Évora Monte, é colocado termo à guerra civil com a rendição de D. Miguel e exílio deste Rei para a Alemanha, país onde viria a falecer.
Por último recordo que 6 dias depois da batalha, em 22/5/1834, do AUTO DE CÂMARA DA ATALAIA, consta que:“ Presentes o Juiz Ordinário, vereadores e mais oficiais da Câmara e outras pessoas. Foi dito que sendo restabelecidos os direitos da Senhora Dona Maria II e o Trono da Monarquia Portuguesa era chegado o momento de se fazer nesta Câmara a devida aclamação e reconhecimento ao Governo Legítimo da mesma Augusta Senhora … o que foi unanimemente acordado ... havendo por ilegítimo todo outro Governo que não seja desta Senhora estabelecido conforme a Carta Constitucional."
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(1) A designada Quádrupla Aliança, tratado assinado em Londres a 22 de Abril de 1834 entre os governos de Guilherme IV do Reino Unido, Luís Filipe de França, D. Pedro IV de Portugal , regente em nome de sua filha D. Maria II, e a regente de Espanha D. Maria Cristina de Bourbon, tinha para as partes contratantes um objectivo essencial o da imposição de regimes liberais nas monarquias ibéricas.
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Bibliografia: Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861 / rev. e coord. por Ernesto de Campos de Andrada. - Coimbra : Impr. da Universidade, 1928-1932. Biblioteca Nacional

Fonte:
http://atalaia-barquinha.blogspot.com/

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« Responder #1 em: Junho 22, 2009, 12:41:36 »




Porque perdeu D. Miguel a batalha da Asseiceira?

 
A sorte da guerra civil jogou-se na última carga de cavalaria do exército miguelista na batalha da Asseiceira, perto de Tomar (16 de Maio de 1834). Malogrado este contra-ataque e morto o oficial francês que o comandava, o desfecho das lutas liberais, opondo os partidários de D. Pedro e D. Miguel, desde 1832 estava traçado.


Não foi a Carga da Brigada Ligeira nem teve um Alfred Tennyson que a imortalizasse em verso. Mas o ataque da cavalaria de D. Miguel na Asseiceira foi o último episódio heróico da guerra civil. A partir daí, traído pelos seus próprios generais, não restava ao rei absoluto outra solução que não a rendição.

A capitulação, assinada a 26 de Maio de 1834, passou à história como Convenção de Évora Monte, ainda que os liberais a tenham sempre referido como "Concessão de Évora Monte".

Foi este o tema da sessão em atraso do II Curso Livre de História Militar "Os Rostos da Batalha", promovido pelo Centro de História da Universidade de Lisboa . O conferencista foi António Ventura, docente e investigador da Faculdade de Letras de Lisboa e um dos coordenadores daquela iniciativa, cujo programa ficou, desta forma, completo.

Como explicou o orador, os dois exércitos partem para a batalha da Asseiceira em situações opostas. Os liberais tinham conseguido deslocar o eixo da guerra, do Porto (cercado desde 20 de Julho de 1832) para o Algarve (24 de Junho de 1833) e conseguido a supremacia naval na batalha do Cabo de São Vicente (5 de Julho de 1833).

Entraram em Lisboa (24 de Julho de 1833) e repeliram o contra-ataque à capital, dirigido pelo marechal Bourmont (Outubro de 1833). Avançaram pelo Ribatejo, vencendo os miguelistas em Pernes (30 de Janeiro de 1834) e Almoster (18 de Fevereiro).

Ambiente de traição
António Ventura, referiu o "ambiente de traição" então vivido: em Almoster, o comandante da cavalaria miguelista tinha-a conduzido a uma armadilha e feito aprisionar os seus soldados antes da batalha sendo, depois, recompensado pelo comando liberal.

Em Braga, o oficial responsável pelas comunicações do exército de D. Miguel bandeara-se para o campo contrário, levando os códigos do telégrafo.

Daí em diante as comunicações eram interceptadas e decifradas, dando vantagem aos partidários de D. Pedro e aos seus comandantes, os duques de Saldanha e da Terceira.

Do lado miguelista consegue-se, ainda assim, pôr de pé, a 15 de Maio, uma força de 6.000 homens, apoiada por cavalaria e artilharia que estabelece uma posição defensiva de 2,5 km de frente, a sul de Tomar, tirando partido das colinas da Asseiceira (perto do actual nó de Tomar da A23).

O exército liberal, estabelecido em Tomar, avança para sul, a 16 de Maio, ao nascer do sol. A guarda-avançada miguelista retarda o avanço contrário sobre Santa Cita até às nove da manhã, altura em que os liberais conquistam a aldeia e formam em três colunas para conquistarem as elevações guarnecidas pela artilharia contrária.

O fogo da artilharia e das armas ligeiras enche o vale de fumo e reduz a visibilidade. António Ventura citou o testemunho de um combatente segundo o qual "parecia que a própria charneca estava a arder". É o momento em que um golpe de audácia pode resolver uma batalha indecisa. O general miguelista Guedes de Oliveira manda avançar a cavalaria.

Cavalgada heróica

Esta era comandada pelo oficial francês Puisseux, um homem alto, de uma coragem lendária e com a cara traçada por uma cicatriz, recebida em Santo Tirso. Invectiva os seus 250 cavaleiros - em mau português, como contou o conferencista - e comanda uma carga que obriga a infantaria liberal a retroceder, até porque os Lanceiros da Rainha recuam, também.

A vitória parece certa mas, ao chegarem ao alto de uma colina, deparam, lá em baixo, com os soldados do coronel Vicente Queirós, um dos melhores operacionais de D. Pedro. Estas forças de reserva não fogem, formam em linha e disparam sucessivas salvas.

Pussieux é mortalmente ferido. Nem sempre a morte do comandante que lidera um ataque desmoraliza as tropas mas neste caso, o ímpeto estava definitivamente quebrado e a iniciativa voltava a pertencer aos liberais.

Retirada para Évora
A partir daqui o exército de D. Miguel retira sobre Évora. Recebe reforços importantes vindos do Algarve e Alentejo (parcialmente dominados pelos absolutistas nas zonas rurais) e junta 10.000 homens. Sendo Évora indefensável, tem duas hipóteses: retirar para as fortificações de Elvas, cuja guarnição lhe continua fiel, ou, como escreverá mais tarde nas suas memórias Charles Napier, o almirante britânico ao serviço dos liberais, ter a audácia de avançar sobre Madrid e juntar-se às forças carlistas espanholas que, desde Outubro de 1833, se tinham rebelado contra o governo liberal.

De resto, o pretendente absolutista ao trono espanhol, o auto-proclamado Carlos V, estará em Portugal até à derrota de D. Miguel.Mas, como referiu António Ventura, os generais miguelistas vão puxar o tapete ao rei e "negociar a paz nas suas costas". Em "A Brasileira de Prazins", Camilo Castelo Branco descreverá, mais tarde, um diálogo entre dois partidários de D. Miguel: "o rei deve saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o MacDonnell, no fim da campanha. Sabes tu? - rematou o morgado - aqui anda marosca..."

Em Espanha a guerra civil vai prosseguir até 1839 com um resultado final idêntico ao português mas num cenário simétrico: o governo central e o exército eram liberais, enquanto os absolutistas dominavam o campo e tiveram que formar um exército a partir de milícias "e de oficiais carlistas saneados".

Guerra continua em Espanha
Muitos dos estrangeiros que tinham lutado em Portugal vão, agora, combater em Espanha, uns ao serviço de liberais, outros dos absolutistas. Uma divisão portuguesa combaterá ao lado dos liberais espanhóis, retribuindo o apoio militar prestado em 1834, quando tropas espanholas tinham entrado por Almeida e pelo Alentejo para pressionar D. Miguel.

Os franceses, quase todos realistas, combatem nos dois campos: durante o cerco do Porto, os liberais chegaram a ser comandados por Solignac e os miguelistas por Bourmont.

"Um caso curioso, 20 anos depois das Invasões Francesas", como lembrou o prof. Ventura. E que punha em causa a propaganda miguelista (um rei legítimo e um povo contra os estrangeiros), expressa numa descrição na imprensa do desembarque do Mindelo (18 de Julho de 1832), pintado como a chegada a terra de uma "horda polaco-germano-vândalo-hispano-marroquina..."

Sendo os governos francês e britânico da época partidários da monarquia constitucional e tendo assinado a Quádrupla Aliança com os liberais portugueses e espanhóis, o apoio internacional a esta causa estava garantido.

As leis francesas e inglesas proibiam o envolvimento de oficiais em conflitos estrangeiros, razão pela qual muitos dos envolvidos, como por exemplo Napier, usaram pseudónimos.

A diferença é que os franceses que lutavam no campo absolutista arriscavam sanções mais pesadas, por estarem a contrariar a política peninsular dos respectivos governos.


Fonte:
http://aeiou.expresso.pt/porque-perdeu-d-miguel-a-batalha-da-asseiceira=f521473
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